sexta-feira

Prefácio

Na leitura do amor como na vida
há sempre uma rua farta de pressas
olhares que se desviam certeiros
uma esquina mijada por lamentos
enganos que se prendem ao coração
uma conversa desdentada sem fim

A sombra quando nasce
nasce para todos
no dia que se funde
atrás de nós

Toquei palavras escusadas
suei com elas

Senti o que sente o corpo
quando não tem mais nada
mais nada
mais nada para ler.

quinta-feira

Assim

Fiz-me num poema
diluído na madrugada
qual sonho em câmara lenta

Fiz-me num poema
com tempo impiedoso
selado pelo beijo da morfina

Fiz-me num poema
embriagado na memória
apago vidas sem rascunho

Fiz-me num poema
reflexo da calçada
exausto no afagar de esquinas

Fiz-me num poema
por acabar

Num poema

Ilustro sonhos
perco sentidos na ideia
mastigo criatividade
coloco-me em causa
mas nem sempre

Apunhalo certezas
dou primazia à ironia
estilhaço convenções
ponho-me a mim
e nem sempre

Cuspo manhãs
sou sem ter rido
vazo silêncios
copio-me a custo
quase sempre

Intuo sensações
faço vales de almas
encaixo tiranias
permito-me a isso

Sempre

rouco
desbotado
canso a palavra
apenas a palavra.

sexta-feira

Siano

nunca trepei a minha árvore
tenho medo
não de quebrar um ou outro ramo
mas sentir o passado como paliativo
que eu moribundo recuso aceitar.

quarta-feira

tenho o vício das manhãs sem estore
um meio corpo
além, Bob Dylan
outro meio por ouvir

sei bem quanto divido
sabe bem saber-me pela fronteira

não acredito em heróis de banda gástrica
acredito no apocalipse dos collants

tudo fumo
até o coração varro
como uma beata

é vício
é vida
logo ironia.

sexta-feira

redundâncias

exercício prático do polegar direito

aquela laranja
lembra o solo da alma
cinza

formulação teórica de qualquer dedo

plana
é a alma
que se deixa planar

quinta-feira

preferi a fuga à saudade
neste ponto irredutível
discordo de todos quanto discorrem sobre o tempo
pois aos ventos que parto jamais lhes direi
não sou capaz
não sou capaz de errar a teu lado
faço-me um favor
tropeço no olhar
atiro contra a dor
que nos há-de abraçar.