quinta-feira

Essa nuvem carrega a boca do tempo

Quem dera ter sentido
mas insisto
deixar-me engolir
à boleia de um balão
penteio árvores com os cordões dos sapatos
resumo histórias nos olhos das aves que migram para sul.

quarta-feira

Intervalo

As mãos têm luas
As mãos têm folhas
E o que verão?
O que verão?
Na tua ausência

Os olhos têm barcos
Os olhos têm peixes
E o que dirão?
O que dirão?
Na nossa ausência

[Um dia]
Os olhos cavaram saudades

[Noutro dia]
Hei-de encontrar

[Um dia]
Os olhos escavaram, amor

[Noutro dia]
Hei-de encontrar-te

terça-feira

Epicentro

Este é o ponto.
Único
como se as palavras tivessem sido esculpidas
num coração abrigado por saudades
onde a tristeza esboçará caminho
indecisa
por agora
habita-me
enquanto defino tempo
à nona tentativa
tempo = concerto sem expressão
resta um pouco de mim
entre camadas
não volto às voltas que nos trouxeram aqui

sábado

silêncio

conversa pintada a quatro mãos.

terça-feira

ainda assim

recolho pedaços de uma barbie
ficava-lhe tão bem a burka.

sábado

a 90 ºC

era capaz de torcer o coração

quarta-feira

Morte fértil

Pobre
dizem que és perneta
tens herpes nos lábios

Puta
não passas recibo
fazes cortes, sem medida, no destino

Porca
cheiras a ontem
nessa derme lavada pelo sol

Pífia
esvai-te pelas palavras
os dedos mal esperam
oh meu amor
a nossa vez
joguemos flores ao adeus
e um pouco de arroz.