terça-feira

Procissão ao centésimo

Fuga do adro

beata varrida

simulacro no altar

andor não espera

santa vai a pé

paralelos viram nuvens

nuvens abrem passagem

para o elevador da fé.

segunda-feira

Perneta

Se amor é verniz
deixa apagar com acetona mais pura

Se amor é bolacha
deixa embeber na tigela de sonhos

Faz cócegas
Faz migalhas

Deixa rasto

Se amor fosse sem antes ter vindo
era lírica tentativa de fuga

quinta-feira

Detalhes

Os lírios murcham
na água turva

Os dentes cerram
palavras meigas

Os livros enterram
sonhos agitados

Tal e qual
Os meus dias são iguais.

As coxas abrem
janelas direitas

As sombras sentem
outras presenças

As telas reflectem
caras pisadas

E que tal?
Pois, os meus dias são banais.

Acerca do perímetro

Minha vida é

Garfo espetado
Pilha de miolos a gingar
E como-me


Minha vida é

Dentadura ouro
Fuga ao copo lágrima
E envelheço-me

Minha vida é

Mortalha gasta
Terra da cogitação seminal
E ejaculo-me

Minha vida é

π

Mentalizo-me

não saberei escrever bonito
ao ponto
o que é da alma
em cruz
sai rugoso
talvez com defeito
em verdade
julgo evidências
faço prova
sentencio
não sei escrever bonito
em boa verdade
julgo minudências
dou-me à prova
prostrado
temerei escrever bonito
pelas rusgas da saudade
envolver amor em papel celofane
assim acentuo
assim será
queira Deus ter versos para queimar
e eu possa arder em belas palavras.

quarta-feira

41

Deveria ser mais rodapé
intuir pelas solas
pensamentos

Este que vos trago já o havia pisado
Este que vos trago já o vi pisado.

terça-feira

Revisitação

Eis a mesa farta de bordado chinês

ao centro

eis o loiro anoréxico

da cabeça aos pés

entorna

chá de hipericão

há-de vomitar

um meu irmão

há-de entregar

cordeiro

e eis que lógico

cozinhado vira livro

marinado a fé.