quinta-feira

Na campa


a família trouxe uns apêndices. é sempre assim quando cheira a tinto. com bocas esfomeadas, soprou-se o pó da lápide. as manchas das flores secas rapidamente desapareceram. graças aos santos, ainda há quem se preocupe com os detalhes e leia o rótulo de uma boa lixívia. a matriarca lançou o lençol de flanela. aquele padrão aos quadros lembra-lhe sempre as noites em que limpou o rabo do seu finado esposo. mesa posta. contaram-se histórias, umas mais vividas que outras. os sorrisos amparavam saudades e as côdeas de broa cumpriam seu fatal percurso até ao intestino. houve quem jurasse ter ouvido o velho Júlio: «não rezes, dás-me cabo dos ossos».

quarta-feira

A beata avulsa e o bife da vazia


chamava-se Maria. era uma beata como tantas outras e ponto. pura, simplesmente não depilava as pernas e vírgula. no dia 01 de Julho, morreu de desgosto e reticências. dizem que já nem se presta à vassoura no adro e aspas. suspeita da vaca Mercês e parêntesis. a mesma teria sido sodomizada pelo querido filho Manuel e parágrafo.
Deus rascunha com os pés e travessão. vingou-se sem pontuação pois ironia das ironias Mercês acabou atravessada numa garganta.

Exposição menor

Ama do meu corpo
vomita umas pedras
lembra
os beijos que vazo
são raspas de pele

Ama do meu corpo
dorme na sopa
fi-la ontem
bem azeda
depois da história
do aconchego
a solidão.

segunda-feira

Ponto vela

O meu coração?
fez hoje dois passos que não o sentia
manco de saudades
trilhou uns lábios
com palavras suspensas
falou mais alto que uma pedra
na volta
trilhara-se no eco.

terça-feira

Aviso

No alto do meu bonsai
culpo o céu por ter estrelas
peneiro algas com recheio a saudade

Tomara chova.

segunda-feira

O prepúcio da Dona Prazeres

Descoberto
no último dia da romaria
o vento soprara um “ai Jesus” tal
que andor foi-se embora ao pé coxinho
a saia plissada verde couve lombarda rasgou-se
de cima a baixo
em sorrisos desfez-se uma procissão.

sexta-feira

Ciclo do doente

Tenho um fungo no meu peito
causa espanto a quem se aproxima
pois viro amor para dentro

E dentro
quero estancar hemorragia
que me há-de consumir
até deitar amor para fora

Mas fora
tentarei vazar olhos
com imagens de gestos lascivos
nesse quadro policromático do desejo

Desejo quando vem
também pode ir
e se vai
nasce um fungo no meu peito.